Como está a vida de Zahira Mous, o rosto que desmascarou João de Deus

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*Por Marcelo Benevides, editor executivo do site SigAlerta

O que era para ser um lugar de cura da alma, acabou se tornando um ponto de partida para uma libertação. Não apenas a pessoal. Sem saber, ela resgataria centenas de vítimas de João de Deus, condenado pela Justiça, mediante graves acusações a partir da coragem de Zahira Mous. Ela acabou se tornando o rosto do movimento que desmascarou o médium. O que mudou na vida desta mulher, após ter sido a primeira a denunciá-lo publicamente? E a justiça, será feita?

“As condenações de 63 anos que ele pegou ainda não se referem a todos os casos. O meu, por exemplo, está parado por causa da pandemia. Ele está em prisão domiciliar. Trata-se de uma pessoa vingativa. Não é um medo apenas, uma realidade!”, afirmou Zahira durante o programa “Making in America”, pela Webrádio Insuperável, em parceria com o SigAlerta, sob o comando do jornalista Marcelo Benevides.

O sentimento de vingança por parte de João de Deus é algo compartilhado por todas as mulheres que o denunciaram. Há uma enorme preocupação quanto à segurança física de cada uma delas devido a denúncias que não param somente nas agressões sexuais.

“Têm alguns lugares que eu não prefiro ir, como Brasília, por exemplo, Goiás também é outro lugar que eu não quero ir. Ele pode, sim, se vingar. Há outras mulheres que podem sofrer as consequências”, alertou Zahira.

Após uma postagem no Facebook, o que já era uma intenção, ganhou coro. O desabafo em forma de denúncia chegou à produção do programa “Conversa com Bial” (Rede Globo). Era a visibilidade necessária para escancarar as atrocidades anunciadas por Zahira. Em dois anos, ela viu a sua vida mudar completamente. À medida que o caso ganhava espaço na mídia, nas redes sociais, mais mulheres surgiam com o mesmo desejo de justiça. Foi um divisor de águas. E o que mudou na cabeça e no coração desta holandesa amante da cultura e de lugares brasileiros?

“O que aconteceu em 2014 foi muito traumatizante. Descobri que se tratava de uma pessoa agressiva, perigosa, ainda com uma rede de suporte. Já havia denúncias de abusos sexuais cometidos por ele, e eu me silenciei por quatro anos. Quando decidi denunciar, cheguei num momento que eu precisava tornar público. Em seguida, veio uma onda de muitas mulheres que também resolveram denunciar – cerca de 600 – muitas de Goiás e São Paulo. Continuei com a terapia. Ninguém consegue lidar com isso sozinho. Hoje em dia, me sinto muito bem, equilibrada, forte. A série documental sobre esta história possibilitou conhecer outras mulheres vítimas dele. Então, com tudo isso, estou me sentindo muito bem”.

Zahira Mous em participação no programa “Conversa com Bial”

Coreógrafa, escritora, performer, coach, ativista, uma artista multifacetada. Zahira Mous vive, hoje, na sua terra natal, mas com o coração cheio de saudade. A sua história com o Brasil começou no início dos anos 2000, quando uma relação familiar a levou para o interior de Minas Gerais, a pacata Aimorés, cerca de 450 km de Belo Horizonte.

“É uma memória muito linda. Tenho um tio morando em Minas Gerais, um padre missionário. Naquela época, com 17 anos, pensava o que fazer por lá? Amei tudo, e disse para mim mesma que voltaria mais vezes naquele lugar”, disse ela sobre a experiência no interior de Minas.

Durante a passagem pelo Brasil, Zahira teve momentos de felicidades e desilusões afetivas. Com a alma ferida, recebeu a indicação sobre um “ser iluminado”, capaz de curar muitos males da vida, problemas físicos e espirituais. A recomendação era seguir para Abadiânia (GO), cidade onde João de Deus operava “milagres” e atrocidades, de acordo com incontáveis testemunhos. Era para encontrar cura. Acabou adoecendo:

“Eu tinha uma conhecida que me mandou uma mensagem, descrevendo como um lugar incrível. Como eu já estava em Minas fazendo o meu projeto e ela me indicou como ele sendo uma pessoa como uma espécie de Jesus, normalmente, as pessoas iam lá para curar algo físico. No meu caso, foi uma questão espiritual. Eu pensei: se esta pessoa pode fazer “milagres”, eu também posso ir lá. Como já havia passado por um abuso sexual com 19 anos, procurei a ajuda”.

Os detalhes do fatídico encontro estão narrados na série documental “Em Nome de Deus”, disponível no Globoplay. O assunto, por óbvio, deixou forte cicatriz. Mas, agora, a preocupação está no acompanhamento dos inúmeros processos que pesam contra João de Deus e que podem ter mais desdobramentos.

“A gente já sabia que ele é um homem muito perigoso, um psicopata. Muitas histórias horrorosas começaram a chegar (após tornar pública a sua denúncia). Teve uma mulher que contou que ele tentou tirar a sua vida, atirando-a num rio. Há muitas coisas: lavagem de dinheiro, armas ilegais… Realmente, é uma pessoa que causa muito medo”, declarou.

A influência exercida sobre as vítimas do médium, ao menos, ficou de legado neste horripilante enredo:

“O meu sentimento é de orgulho, porque eu sei o quanto é difícil denunciar uma pessoa tão poderosa. A gente sabe o quanto é difícil isso. Mas acredito que depois de tudo o que aconteceu, vem a cura”

Zahira com a dançarina Merel Cornet, para o espetáculo “Resgatando a Deusa”. Foto: Sjoerd Derine

Apesar do medo latente em relação ao que foi relatado sobre o agressor, a holandesa pretende voltar ao Brasil, retomar projetos e seguir inspirando outras mulheres.

“Estou preparando um espetáculo de dança. Quero muito levar isso ao Brasil, algo que pode ajudar muito as mulheres”, comentou.

João de Deus foi preso no dia 16 de dezembro de 2018. Até o momento, tem três condenações que somam 63 anos.

1ª – por posse ilegal de arma de fogo, pena de 4 anos, em regime semiaberto, novembro de 2019;

2ª – por crimes sexuais cometidos contra quatro mulheres, condenado a 19 anos em regime fechado, em dezembro de 2019;

3ª – por crimes sexuais cometidos contra cinco mulheres, sentenciado a 40 anos em regime fechado, janeiro de 2020.

Desde quando as denúncias vieram à tona, em dezembro de 2018, o MP-GO já recebeu cerca de 320 denúncias de mulheres que se dizem vítimas de João de Deus.

Ao todo, ele já foi denunciado 14 vezes pelo Ministério Público, sendo 12 por crimes sexuais.   

Para assistir a entrevista completa, clique no link:

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